São quase meia-noite. O tic-tac do relógio soa seco enquanto as horas se arrastam preguiçosamente. O silêncio que ecoa pela casa é ensurdecedor... Prenúncio de mais uma madrugada longa a minha espera. Decidi então me sentar no chão frio do quarto, defronte a janela, e escrever. Mas escrever o que? Escrever meio sem rumo, para passar o tempo e ver o sono chegar de mansinho. Escrever para enfim colocar em palavras o que me inquieta a alma.
Decididamente não escrevo para ninguém. Talvez eu escreva, (em desabafo) para a saudade. Esta elegante dama que vem visitar-me todas as noites e por vezes dias sem fim. A saudade vem ao meu encontro vestida de um belíssimo manto negro adornado de estrelas. Com seus meigos olhos de luar, e um pequeno-sorriso-triste... Sempre triste. A quem quero enganar? A mim mesma? A saudade? Não. Não escrevo para a saudade, pois esta já conhece meu tormento. Escrevo para mim mesma, como se escrevendo eu pudesse aliviar a minha dor. Confesso que na esperança (sempre vã) de diminuir do meu peito essa ausência de não sei o quê. Escrevo na esperança de reduzir a falta de pessoas queridas, que a vida foi me deixando ao longo da minha existência. Na ânsia de tentar reviver, mesmo que por instantes, alguém que fui ou até mesmo viver em palavras o que posso nem me tornar a ser.
Cumpro todas as noites o mesmo ritual, deixando sempre a porta do quarto aberta. E por esta mesma porta a saudade entra, e me faz companhia. Como agora: Enquanto escrevo, ela me observa. Não diz palavra alguma. Apenas me olha, e entende o meu silêncio. No desabrochar destas noites insones, quando o meu perigo aumenta, é ela quem me acalenta, que me envolve num abraço cheio de lembranças perfumadas dos dias felizes da minha vida em pura essência.
A minha saudade tem cheiro. É um perfume diferente que exala de cada pensamento meu que percorre o passado, cada lembrança que eu tenho da minha infância, da minha adolescência, do primeiro amor, dos lugares que vivi, da inocência enquanto menina. Um tempo que não volta nunca. E é um cheiro perfeito, puro, inconfundível. E nesta noite, pude perceber que durante toda minha vida eu senti saudade. Passei dias a chorar minhas percas, ausências, as minhas faltas. Passei o tempo todo me despedindo de algo, me ausentando de alguém. E a saudade insistindo, teimosa em me perseguir...
Ah, são tantas as minhas saudades...Permita-me neste momento ser um tanto egoísta e falar somente da minha saudade, a chorar somente a minha dor, e dizer como me sinto. Estou cansada. Sinto dores. Na alma. Lágrimas não choradas e uma tristeza que não posso (e nem quero) comunicar a ninguém. Sinto falta. Me dói muitas ausências. E mesmo tentando não sentir tanta falta, tanta saudade, simplesmente a sinto. Inevitavelmente, porque de certo amo, ou amei em algum momento na minha vida. E a saudade nada mais é a consequência da ausência de quem se ama.
Vivianne Oliveira
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deliciaram-se: \0/